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Quilombolas pagadores de promessa

Por Elizeu de Sousa, jornalista

No último domingo de agosto, os quilombolas da Serra do Evaristo pagaram mais uma promessa para São Gonçalo. É assim que as mulheres da comunidade, situada a 86 quilômetros de Fortaleza, no município de Baturité, justificam cada jornada da dança dedicada ao santo, que chega a durar um dia inteiro. O pai de uma das dançantes, o ancião Luiz Gonzaga Bento, de 82 anos, que nasceu ali mesmo no Maciço de Baturité, diz que desde menino aprecia o ritual.  “No tempo que a minha mãe ainda era viva, fazia aquela Dança de São ‘Gonçal’, era bonito demais”, recorda, sentado numa cadeira ao ar livre, enquanto sua filha,  noutro ponto da comunidade, se reúne à procissão que precede à dança.

Foto: Daniel Mendes
             Procissão antecipa a dança de São Gonçalo               Foto: Daniel Mendes

Socorro Fernandes, atual mestra do ‘São Gonçalo’, que ano passado foi reconhecida como mestre da Cultura pelo Ministério da Cultura, explica que “hoje a Dança é só de meia jornada”, pois o autor da promessa, o professor da rede pública, Batista de Assis, disse ter combinado assim com o santo. Batista à frente da procissão, todo orgulhoso, diz que no final de dezembro do ano passado haviam perdido o prazo para entrega de proposta para o edital dos Pontos de Cultura. Após ter tentado de todas as maneiras uma saída, desanimado, entregou para São Gonçalo a solução do problema. E eis que, ao chegar à casa, liga o computador e vê anunciado que o prazo do edital havia sido prorrogado até o dia 31 de janeiro de 2011. “Foi um milagre”, declara ele.

A mestra Socorro recorda que “quando nós dançamos a primeira Dança aqui, debaixo de uma mangueira, foi já uma promessa para resolver a questão da água”. Pois segundo ela, há muitos anos havia uma escassez danada de água na serra, “logo depois da Dança apareceu muita água e o pessoal começou a acreditar mesmo que o santo era milagroso”. A partir daí começaram as promessas que ela, um grupo de 29 mulheres e três músicos pagam com a “Dança de São Gonçalo.”

Foto: Daniel Mendes
   Luiz Gonzaga Bento      Foto: Daniel Mendes

A comunidade, que há três anos foi reconhecida pela Fundação Cultural Palmares como Quilombola experimenta ainda outro evento extraordinário: Em seu território jazem vasos de cerâmica em forma de potes achatados que, pela estimativa da arqueóloga do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Verônica Viana, devem ser urnas funerárias indígenas de até mil anos de existência. Embora ela advirta que só após a verificação com carbono 14 será possível, de fato, estabelecer uma datação.

Essa descoberta já atraiu estudiosos e muitos curiosos à Serra do Evaristo. Agora, o Iphan definiu aquele lugar como território de pesquisa. De acordo com Verônica, o resgate arqueológico que logo terá início deverá durar entre 10 e 20 anos, embora o compromisso inicial seja de apenas seis meses para prospectar e recuperar as cerâmicas encontradas na superfície. O trabalho envolverá jovens da comunidade que serão capacitados para colaborar nas escavações, no registro e na divulgação do material encontrado.

Para esse fim, o Ponto de Cultura, que vai capacitar os jovens em técnicas audiovisuais, turismo sustentável e empreendedorismo cultural, poderá oferecer a mão-de-obra local que o Iphan vai precisar.  De acordo com Batista de Assis, “um dos produtos do Ponto será a elaboração de um documentário sobre os aspectos da vida da comunidade e, com certeza, a Dança de São Gonçalo e o Cemitério Indígena farão parte desse audiovisual”.  A professora Elza Braga, da Universidade Federal do Ceará (UFC), destaca que “os jovens, além de documentar, podem ser um elo entre o trabalho arqueológico e a própria construção da identidade da comunidade”.

Presente ao encontro, o reitor da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), Paulo Speller, assume compromisso com a comunidade.  “Essa experiência e outras experiências da região do Maciço, sobretudo, vão ser resgatadas, seja como extensão ou como pesquisa, envolvendo, o que é mais importante, os nossos estudantes, tanto os da graduação como os de pós-graduação como um aspecto formativo permanente de todo o processo”.

Já o secretário de Cultura do Ceará, professor Pinheiro, que é historiador, após conferir os vestígios das prováveis urnas funerárias indígenas, destacou que “a política dos Pontos de Cultura chega na ponta, onde muitas vezes as ações culturais não conseguiam chegar.” E comemora: “nós conseguimos aprovar agora mais cem Pontos de Cultura, isso significa que 181 municípios do Ceará, hoje têm Pontos de Cultura.”

Em breve, o Instituto Lamparina e a TV Pirambu divulgarão uma reportagem audiovisual sobre esse evento, neste site.

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